Se você é como eu e tem uma conta na Steam que parece um cemitério de jogos comprados em promoções e nunca abertos, parabéns: você faz parte do clube. É aquele sentimento clássico de ver um título com 75% de desconto, clicar em comprar sem nem pensar e, no fundo, acreditar que aquela é a peça que faltava para a sua felicidade gamer. O problema é que a gente não compra o jogo para quem a gente é agora, mas sim para aquela versão idealizada de nós mesmos, o tal do 'eu fantasia'.
Esse 'eu fantasia' é aquele cara que tem energia infinita, não trabalha 40 horas por semana, não tem boletos para pagar e, convenientemente, possui um gosto musical e gamer completamente diferente do nosso. A gente olha para um MMO denso, com centenas de horas de conteúdo, e pensa: 'Sim, eu serei aquele jogador dedicado que vai dominar o ranking e liderar a guilda mais poderosa do servidor'. Mas a realidade bate forte quando a gente abre o jogo depois de um dia exaustivo e percebe que só queria era dar umas piscadas e dormir.

O ciclo é sempre o mesmo: o hype sobe, a gente compra a Standard Edition ou até a Digital Deluxe Edition para se sentir mais comprometido, e o jogo fica lá, mofando na biblioteca. É quase como se a compra do jogo fosse a recompensa em si, e não o ato de jogar. A gente compra a ideia de ser alguém que gosta de grindar por dez horas seguidas, quando na verdade a gente mal aguenta jogar 30 minutos de um jogo indie sem sentir que o cérebro está derretendo.

Pegue, por exemplo, esses jogos de ação frenética. A gente vê as imagens, o combate parece fluido, os efeitos de luz são insanos e a gente pensa que vai virar um mestre do timing e do dodge. Mas aí você entra no jogo e percebe que a curva de aprendizado é um paredão. Em vez de diversão, o que surge é a frustração de saber que você não tem mais a mesma reflexão de quando tinha 15 anos e passava as férias inteiras no PC. O jogo não flopou, quem flopou foi a nossa disposição física.
Outra armadilha perigosa são os chamados 'cozy games'. Sabe aquela vibe de montar fazendinha, decorar a casa e viver em paz? A gente compra esses títulos tentando forçar um estado de relaxamento que a gente simplesmente não consegue alcançar. Você tenta se concentrar naquelas mecânicas lentas, mas a expectativa do mundo real não deixa. Você quer ser a pessoa zen que curte um ritmo lento, mas sua mente está gritando que você está perdendo tempo de subir de nível em algo que realmente importe.

E não podemos esquecer do impacto visual. Muitos MMOs vendem a ideia de um mundo vasto e lindo, e a gente compra o jogo só para 'passear' por aquele cenário. O problema é que, para chegar nas partes realmente bonitas, você geralmente precisa enfrentar um grind absurdo. É aí que a fantasia morre. A gente percebe que não quer fazer a mesma missão de matar 10 javalis quinhentas vezes só para liberar o acesso a uma montanha com luzes bonitas. O esforço exigido pelo jogo é incompatível com a vida de um adulto funcional.
Essa obsessão pelo 'eu fantasia' cria uma pressão psicológica invisível. Você olha para a sua biblioteca e sente que está falhando como gamer porque não terminou aquele RPG épico ou não chegou ao level cap de um jogo massivo. A gente começa a tratar o hobby como se fosse um segundo emprego, com metas, prazos e obrigações. Quando o jogo vira tarefa, a diversão vai para o ralo e a gente acaba voltando para o porto seguro de um jogo que já conhece, ignorando todas as novidades que pagamos caro para ter.

Olha o caso de mundos imersivos e profundos. A gente compra esses jogos querendo se perder na lore, ler cada livro virtual e entender cada detalhe da política do mundo. Mas, na prática, a gente acaba pulando os diálogos porque quer chegar logo na parte da ação, ou pior, desiste no meio do caminho porque a história ficou complexa demais para quem só tem duas horas de folga por dia. A gente queria ser o historiador do jogo, mas acaba sendo apenas mais um turista que tirou três fotos e foi embora.
E tem a galera que tenta forçar o estilo 'hardcore'. Aquela vontade súbita de jogar algo extremamente punitivo, onde um erro significa perder todo o seu progresso ou ser humilhado por jogadores veteranos. A gente compra esses jogos pensando que vai ter a disciplina de um pro-player de eSports, mas na primeira vez que toma um nerf pesado ou perde um item raro, a vontade é de desinstalar tudo e nunca mais olhar para a Steam. A fantasia de ser o 'sobrevivente' ou o 'guerreiro implacável' dura exatamente até a primeira derrota amarga.

Jogos com legados de grind infinito são os maiores culpados por isso. A gente olha para a glória dos antigos clãs e pensa que pode repetir aquilo hoje em dia. Só que o mundo mudou. A gente não tem mais aquele tempo livre sagrado. Tentar encaixar um estilo de jogo de 20 anos atrás na rotina de 2024 é pedir para ter um burnout digital. A gente compra a nostalgia de uma época em que jogar era a nossa única preocupação, mas a nostalgia não devolve o tempo nem a energia.
No fim das contas, precisamos aceitar que não somos mais aquela versão imaginária de nós mesmos. E tudo bem! Ter uma biblioteca cheia de jogos não jogados não é um crime, é quase um ritual de passagem para qualquer gamer veterano. O segredo é parar de comprar jogos baseando-se em quem a gente gostaria de ser e começar a comprar aquilo que a gente realmente consegue e quer jogar agora, mesmo que seja algo simples e sem hype.
Meu veredito final é simples: parem de mentir para si mesmos durante a Summer Sale. Se você não tem tempo para fazer um raid de seis horas com 40 pessoas, não compre aquele MMO ultra complexo só porque a arte é bonita e você gostaria de ser o tipo de pessoa que tem paciência para isso. Compre o que te diverte hoje, não o que alimenta o seu ego imaginário. Menos quantidade, mais qualidade e, por favor, parem de acumular jogos que vocês sabem que nunca vão abrir.



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