Olha, vamos ser sinceros: a molecada de hoje, que cresceu com a facilidade absurda da Steam, está completamente mimada. Eu não digo isso para ser o "tiozão do churrasco" reclamando do novo, mas é que a experiência de consumir games mudou de um jeito que beira o surreal. Hoje, se você quer jogar qualquer coisa, é só dar um clique, esperar o download e pronto. A abundância é tanta que a gente nem joga metade do que compra nas promoções de Saldão de Inverno, transformando nossa biblioteca em um cemitério de jogos que nunca vimos a tela de título.
É fácil olhar para a indústria atual e reclamar dos preços abusivos de US$ 70 (que dão cerca de R$ 385 reais) em lançamentos, ou do hype exagerado que termina em jogos bugados. Mas a real é que, proporcionalmente, nunca tivemos tanto acesso a tanta coisa. Se você consegue imaginar um gênero ou uma mecânica, provavelmente existe um jogo indie no PC que faz exatamente isso. A gente vive na era do excesso, onde o desafio não é encontrar o jogo, mas sim ter tempo de vida para jogar tudo o que está disponível nas plataformas digitais.

Agora, volta comigo para 1996. Naquela época, a situação era completamente diferente e, honestamente, bem mais perrengue. Para a maioria de nós, jogo novo era coisa de Natal ou aniversário. O resto do ano era na base do shareware, demos que vinham em revistas ou aquela cópia pirata, mal gravada, que o seu amigo trazia num CD-R riscado que você rezava para o leitor de disco não cuspir para fora. Comprar um jogo novo todo mês era luxo de quem era herdeiro; para o gamer comum, a biblioteca era enxuta e cada título era tratado como um tesouro sagrado.
Mas existia uma brecha nesse sistema: o lendário MegaPak. Para quem não viveu, o MegaPak era basicamente o tataravô do Humble Bundle, só que sem a parte da caridade e com muito mais plástico. Eram aquelas caixas enormes, cheias de CDs, que reuniam vários títulos que já tinham sido lançados um ou dois anos antes. Era a salvação de quem queria expandir a coleção sem precisar vender um rim. A empresa por trás disso era a Megamedia Corp, uma publicadora que hoje em dia quase não deixa rastros na internet, mas que na época era a rainha dos bundles de baixo custo.

O primeiro MegaPak chegou em 1994 e já vinha com a mentalidade de "quantidade sobre qualidade". A caixa ostentava um número 11 gigante em amarelo, tentando convencer o consumidor de que ele estava levando um arsenal de diversão por um preço ridículo. O problema é que a qualidade desses jogos era, no mínimo, variável. Era uma verdadeira roleta russa: você podia encontrar uma joia escondida ou um software que parecia ter sido feito por um estagiário bêbado. Mas isso fazia parte do charme, era a emoção do desconhecido que a Notícias de hoje em dia, com reviews detalhadas e trailers de 10 minutos, matou completamente.
Entre os destaques desse primeiro volume, tínhamos coisas como o World of Ultima: The Savage Empire, que trazia aquele clima de RPG clássico, e o simulador de voo F-14 Tomcat. Tinha também o Test Drive 3: The Passion, que pelo nome parecia mais um drama religioso do que um jogo de corrida, mas que a gente jogava com a mesma vontade de quem está jogando um Forza hoje em dia. Era aquele tipo de experiência que você não escolhia a dedo; você simplesmente instalava tudo o que vinha no disco e torcia para o Windows não dar tela azul no processo.
E não podemos esquecer do Dinosaur Safari, um exemplo perfeito da era do "edu-tainment". Era aquele meio termo esquisito entre um jogo de aventura e uma enciclopédia digital tipo o Microsoft Encarta. Eu mesmo passei horas no PC do meu pai explorando essas coisas. Não era AAA, não tinha ray tracing e rodava a uns 15fps se você tivesse sorte, mas a sensação de descoberta era imensa. Você não tinha um guia de troféus ou um fórum no Reddit para te dizer a melhor build; você simplesmente explorava até descobrir como as coisas funcionavam.
O sentimento de "aspirar" vários jogos por alguns trocados era algo quase indescritível. Quando você abria aquela caixa e via a pilha de CDs, sentia que tinha acabado de hackear o sistema. Mesmo que metade dos jogos fosse um flop, a satisfação de ter aquela coleção física, com manuais impressos e capas coloridas, trazia um peso emocional que o download digital nunca vai conseguir replicar. A gente não comprava apenas o software, a gente comprava a expectativa de passar tardes inteiras tentando fazer um jogo obscuro funcionar na nossa máquina.

É claro que, olhando para trás, a gente sabe que a evolução foi necessária. Ninguém quer passar três horas instalando um jogo de um CD riscado hoje em dia, e a conveniência da nuvem é imbatível. Mas perdi a conta de quantas vezes senti falta daquela curiosidade genuína de instalar algo sem saber se era bom ou ruim. Hoje, a gente consome games como se fossem fast food: rápido, eficiente, mas muitas vezes sem sabor. O MegaPak era comida de vó: demorava para fazer, às vezes vinha algo estranho no meio, mas tinha alma.
No fim das contas, a nostalgia é um filtro poderoso, mas a verdade é que a relação do jogador com o jogo mudou. Saímos de uma era de escassez e descoberta para uma era de abundância e tédio. Ter 500 jogos na conta e não saber o que jogar é o novo "perrengue" do gamer moderno. A gente trocou a aventura da exploração pela segurança do algoritmo, e embora tenhamos ganhado em qualidade técnica, perdemos um pouco daquela magia caótica dos anos 90.

Meu veredito é que a molecada deveria, ao menos uma vez na vida, tentar jogar algo completamente obscuro e sem review, só para sentir o gosto de quando a gente não sabia se o jogo era um masterpiece ou um lixo completo. O MegaPak não era perfeito, mas representava um tempo onde ser gamer era quase um ato de resistência e curiosidade pura. Que saudade daquela época em que a maior preocupação era se o CD ia ler de primeira ou se a gente teria que soprar o disco como se fosse um cartucho de Nintendo.



💬 Comentários da Comunidade
Carregando comentários...