Olha, eu já vi de tudo nesses 15 anos de cobertura de games, mas ver a Game Freak — sim, a galera do Pokémon — soltando um Action RPG sci-fi com essa pegada é algo que me deixou genuinamente surpreso. Beast of Reincarnation não é só mais um jogo de bater em monstro; é uma tentativa ousada de misturar combate técnico com uma vibe existencialista que a gente raramente vê em jogos desse gênero. O jogo chegou em agosto de 2026 e já divide opiniões, mas a primeira coisa que você sente é que tem algo de diferente aqui.
O clima é pesado, melancólico e absurdamente bonito. A história nos coloca na pele de Emma, uma jovem infectada pela Blight, que transformou o Japão do século 41 em um cemitério de ruínas verdes e silenciosas. A Emma é praticamente uma casca vazia: ela não sente emoções e não lembra de nada do seu passado, sendo tratada como um lixo pelos sobreviventes. Mas, em troca desse isolamento social e emocional, ela ganhou poderes bizarros de manipular flora agressiva em forma de tentáculos, o que torna o visual do combate bem único.

Se você bateu o olho no trailer e pensou "caramba, isso parece Stellar Blade", você não está totalmente errado. A estrutura é aberta, mas linear, e foca total na velocidade e destreza do jogador. Porém, onde Stellar Blade parece um festival de música eletrônica com o grave no talo, Beast of Reincarnation é como se tivessem tirado a percussão e deixado apenas a melodia triste. É um jogo paciente, quase elegíaco, que te envolve em um sentimento de condenação cósmica enquanto você explora esse mundo devastado.

Agora, vamos falar do que realmente importa: o combate. O jogo é basicamente uma dança de parry. Se você curte a precisão de Sekiro ou a tensão de Nier, vai se sentir em casa, embora a janela de tempo para aparar os golpes seja um pouco mais generosa que a de Sekiro. Pra quem acha que isso é "parryslop" (aquela mecânica repetitiva que saturou ultimamente), a Game Freak deu algumas válvulas de escape interessantes para você não ficar dependente apenas de apertar um botão no tempo certo.

A versatilidade vem do arsenal à distância. A Emma usa arco e besta, e se você investir nos skill trees — que, aviso logo, são meio confusos e daria pra ter feito melhor —, essas armas ficam monstruosamente fortes. Você pode equipar três tipos de elementos diferentes e a munição recarrega nos acampamentos. O ponto alto é o "entanglement gauge": ao mirar no ar, o tempo desacelera para todo mundo, menos para a Emma, permitindo que você chova flechas explosivas nos inimigos antes mesmo deles piscarem.
Para recarregar esse gauge de lentidão, o caminho mais rápido é justamente acertar parries perfeitos ou esquivas precisas. O jogo oferece várias espadas, mas serei sincero: elas não passam a sensação de serem diferentes no gameplay, funcionando mais como buffs passivos. É aquele tipo de design que poderia ter sido mais aprofundado para evitar a monotonia, mas que ainda assim cumpre o papel de te manter no fluxo da luta.

E não podemos esquecer do Koo, o cachorro infectado que acompanha a protagonista. Ele é um bolinho de pelos adorável, mas em combate ele é essencial. Você pode disparar ataques especiais dele através de um menu que lembra combate por turnos, e acertar esses golpes é a única maneira de curar a Emma marginalmente. O problema é que a Emma e o Koo compartilham os mesmos pontos de habilidade, e eu acabei investindo tanto na garota que quase esqueci que o cachorro existia, o que foi um erro, já que a maioria dos inimigos te mata com dois ou três golpes.
No lado técnico, testamos o título em um PC equipado com uma RTX 3060 e Ryzen 5 5600H, e a performance foi honesta, embora nada de outro mundo. O jogo está disponível na Steam por aproximadamente R$ 330 reais, um valor salgado, mas condizente com a escala da produção. Quanto ao Steam Deck, a situação ainda é incerta e, sinceramente, acho difícil que rode liso sem uns patches pesados de otimização.

No fim das contas, Beast of Reincarnation é um jogo admirável, mas cheio de falhas. Ele tenta abraçar demais referências de Final Fantasy e Sekiro e, às vezes, se perde no caminho. A ambientação é o ponto mais forte; é impossível não se sentir imerso naquela solidão opressora enquanto luta contra a besta da reencarnação. É um projeto com alma, algo que falta em muitos AAA genéricos de hoje em dia.
Vale a pena? Se você gosta de desafios técnicos e não se importa com árvores de habilidades complicadas, com certeza. É um sopro de ar fresco ver a Game Freak arriscando fora da zona de conforto. O jogo não é perfeito e tem seus momentos de flop, mas a experiência artística compensa as arestas não polidas. É um título que deixa a gente pensando mesmo depois que os créditos sobem.



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