Sabe aquele momento em que a empresa decide jogar no modo 'hard' sem ter o equipamento certo? Foi exatamente isso que a Hasbro, a dona da Wizards of the Coast, tentou fazer. Eles entraram numa vibe de querer dominar o mercado de games, gastando como se não houvesse amanhã durante a era de ouro do Baldur's Gate 3, mas a conta chegou e o tombo foi feio. Agora a realidade bateu na porta e eles estão recuando nos planos de se tornarem uma gigante da publicação.
O prejuízo não foi brincadeira: a empresa registrou uma baixa de $56 milhões, o que dá aproximadamente R$ 308 milhões de reais jogados no lixo. Esse valor, chamado tecnicamente de *impairment charge*, é basicamente a Hasbro admitindo que os ativos de games que ela possuía perderam valor. É aquele famoso momento em que o investidor percebe que o hype não se traduziu em lucro e que a estratégia de expansão agressiva simplesmente flopou.

Para tentar estancar o sangramento, o CEO Chris Cocks deixou claro que a prioridade mudou. Eles estão cancelando diversos jogos que estavam previstos para 2028 e além, focando apenas naquilo que eles chamam de "projetos de alta convicção". Ou seja, vão parar de atirar para todo lado e investir apenas onde sentem que têm a "faca e o queijo na mão", priorizando franquias que já provaram que dão dinheiro, como Magic: The Gathering Arena e Monopoly Go.
Mas nem tudo é tragédia para quem gosta de RPG. Dois projetos importantes foram confirmados como seguros e já entraram na fase final de desenvolvimento: o Exodus, aquele RPG de ficção científica que promete ser um sucessor espiritual de Mass Effect, e o Warlock: Dungeons and Dragons, que foca em uma das classes mais icônicas de D&D. Ambos estão com data de lançamento prevista para 2027, e a Hasbro espera que eles tragam aquele potencial de público massivo que vimos recentemente no PC.

O Exodus, especificamente, é a grande aposta para levar a força dos RPGs da empresa para o espaço. A ideia é criar algo com a mesma profundidade narrativa e escolhas morais que vimos em grandes produções da BioWare, tentando provar que a Hasbro consegue sim gerenciar IPs complexas sem precisar de parceiros externos para tudo. É o tipo de jogo que, se acertar a mão, vira referência no gênero.
Por outro lado, tivemos baixas dolorosas. O projeto de ação de D&D que estava nas mãos de Stig Asmussen (o gênio por trás de God of War 3 e Star Wars Jedi: Fallen Order) foi cancelado. O Asmussen até fundou o estúdio Giant Skull em 2024 para isso, mas a Hasbro decidiu cortar a verba. A boa notícia é que a equipe ainda está tentando vender a ideia para outros publishers, porque o conceito parece ser sólido demais para morrer aqui.

E quanto ao G.I. Joe Snake Eyes? Bom, aí entra o mistério. A empresa disse em fevereiro que o jogo não foi cancelado, mesmo após o estúdio responsável ter fechado as portas. É aquela situação clássica de "está vivo, mas está na UTI". Não há atualizações concretas, e considerando a nova política de cortes da Hasbro, as chances de esse jogo ver a luz do dia em um PS5 ou Xbox Series X parecem cada vez menores.
Agora, o elefante na sala: Baldur's Gate 4. Mesmo sendo o maior sucesso recente da marca, não existe nada oficial sobre uma sequência. Tivemos boatos de que a Hasbro cogitou colocar a equipe de Exodus para trabalhar no novo Baldur's Gate, mas nada disso saiu do papel. A relação com a Larian Studios parece ter seguido caminhos diferentes, e a Hasbro continua procurando parceiros na Steam e em outras plataformas que aceitem o risco de assumir esse gigante.

Olhando de fora, fica aquele sentimento de que a Hasbro tentou dar um salto maior que a perna. Queriam ser a nova Electronic Arts ou Ubisoft da noite para o dia, esquecendo que fazer game AAA exige mais do que apenas ter a licença da IP; exige cultura de desenvolvimento e paciência financeira. Esse nerf forçado no orçamento é a consequência direta de uma gestão que ignorou a complexidade da indústria.
No fim das contas, a estratégia de focar no que funciona — como o ecossistema de Magic e as promessas de 2027 — é a única saída lógica. Se eles conseguirem entregar Exodus e Warlock com a qualidade que os fãs esperam, podem recuperar a confiança do mercado. Caso contrário, veremos mais cortes e talvez a empresa desista de vez de ser publisher para voltar a ser apenas a "dona do copyright".

Meu veredito é simples: menos é mais. É melhor ter dois jogos excelentes do que dez projetos medíocres que acabam sendo cancelados e gerando prejuízos de R$ 308 milhões. Agora é sentar e esperar para ver se a Hasbro realmente aprendeu a lição ou se isso é apenas mais um remendo em um plano que já nasceu torto. Ficamos na torcida pelo Exodus, porque um RPG de sci-fi de peso é algo que a gente realmente precisa agora.


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