Se você, assim como eu, passou raiva tentando enxergar o que diabos estava acontecendo nas cenas noturnas de Game of Thrones, saiba que você não está sozinho. A HBO ficou tão traumatizada com as reclamações dos fãs — aqueles 'cinematógrafos de sofá' que reclamavam da iluminação nas redes sociais — que a empresa resolveu botar um freio rigoroso na escuridão de suas produções. Isso veio à tona agora em uma conversa com o Gustav Danielsson, o cara responsável pela fotografia de A Knight of the Seven Kingdoms, que abriu o jogo sobre como foi a pressão dos executivos para que a série não virasse um 'estudo de sombras' ilegível.
Enquanto a gente acabou de fechar a Season 3 de House of the Dragon com aquelas batalhas colossais que dão aquele hype absurdo, A Knight of the Seven Kingdoms resolveu ir por um caminho completamente diferente. A ideia aqui foi dar um passo atrás na escala épica e focar no que a gente chama de "universo expandido" feito do jeito certo. Em vez de dragões gigantes e exércitos infinitos, a produção quis mostrar um lado mais terreno e visceral de Westeros, focando no cotidiano e na sujeira do mundo, o que traz um frescor necessário para a franquia.

Para alcançar esse nível de naturalismo, o Danielsson e sua equipe decidiram chutar o balde dos cenários artificiais de estúdio. Cerca de 90% da série foi filmada ao ar livre na Irlanda do Norte, trocando as luzes controladas por florestas, montanhas e muita lama. Claro que o clima de Belfast não colaborou nem um pouco, mas é justamente essa instabilidade climática que deu à série aquela cara de "estou realmente aqui no meio do mato", algo que raramente vemos em produções de fantasia que abusam demais do CGI e de fundos verdes.
O processo de filmagem, porém, foi um caos completo nos bastidores, provando que fazer algo parecer "natural" dá um trabalho desgraçado. Uma sequência que parece um momento contínuo na tela pode levar dias para ser montada, envolvendo cavalos, figurantes e rigs de iluminação massivos. No episódio 5, por exemplo, a batalha levou duas semanas para ser gravada porque eles queriam aquele visual de amanhecer, usando máquinas de neblina e vento para criar a atmosfera, além de VFX adicionados depois para dar o polimento final.

E tem a parte engraçada (ou nojenta) da produção: o sangue falso. Para dar a textura certa, eles usaram açúcar na composição do sangue, o que acabou atraindo enxames de vespas durante as gravações. O Danielsson contou rindo que dá para ver algumas vespas no produto final da série, e em vez de gastarem fortunas tentando apagar cada inseto no pós-processamento, a produção decidiu abraçar o erro. No fim, isso até ajuda na imersão, porque você quase consegue sentir o cheiro do ambiente quando vê algo voando perto da câmera.

Mas voltando ao trauma da escuridão, a briga com a HBO foi real. O Gustav Danielsson, o diretor Owen Harris e a showrunner Ira Parker queriam um mundo genuinamente escuro, simulando a experiência de estar ao ar livre à noite, onde seus olhos se adaptam e você começa a enxergar formas, em vez daquela iluminação artificial de série de TV. A HBO, porém, entrou em pânico toda vez que via sombras profundas nos primeiros cortes, temendo que o público reclamasse novamente que não conseguia ver nada na tela.
Para resolver esse impasse e provar que a série não estava flopando visualmente, eles criaram um workflow técnico rigoroso. O Danielsson e o colorista Tim Drewett desenvolveram um look específico para as câmeras digitais para que a imagem parecesse mais película (o famoso visual filmic). No set, ele conseguia alternar entre esse look finalizado e o negativo digital bruto, enquanto o técnico de imagem, Cel Bothwell Fitzpatrick, avisava em tempo real se a cena estivesse ficando escura demais para os padrões da emissora.

O golpe final para calar os executivos foi um teste de estresse técnico. A HBO possui uma sala cheia de televisões configuradas de formas diferentes, simulando desde a TV 4K topo de linha até aquele aparelho mais simples que muita gente usa em casa. Eles passaram as imagens por esse processo de teste para garantir que, independentemente do aparelho do espectador, a imagem fosse legível. Depois de passarem por esse crivo, o Danielsson pôde afirmar com confiança que a série definitivamente não está escura demais.
Olhando para o resultado final, é nítido que a aposta no naturalismo funcionou. Enquanto acompanhamos as Notícias sobre as próximas expansões de Westeros, fica claro que a diversidade visual é o que mantém a franquia viva. Se tudo fosse apenas dragões e castelos imensos, a gente enjoaria rápido. Esse foco no chão, na lama e na luz real traz uma humanidade para os personagens que faz a gente se importar mais com a jornada de Dunk e Egg.

No fim das contas, a HBO aprendeu a lição da maneira mais difícil: ouvindo as reclamações da internet. Embora a pressão dos executivos possa parecer engessada, o resultado técnico em A Knight of the Seven Kingdoms mostra que é possível ter atmosfera e sombras sem transformar a série em um jogo de "encontre o personagem no escuro". Para quem costuma assistir via apps no PlayStation ou no PC, a tranquilidade de saber que a imagem foi testada em diversas telas é um alívio.
Meu veredito é que a série acertou em cheio ao tentar ser menor para parecer maior. Ao fugir da fórmula de House of the Dragon, eles criaram algo que respira e tem identidade própria. Agora é só esperar que as próximas produções do universo de George R.R. Martin mantenham esse equilíbrio entre a ambição artística e a realidade técnica da sala de estar do público.



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