Quem acompanhou a era de ouro do Xbox 360 certamente lembra das tardes memoráveis explorando o mundo de Albion e cometendo todo tipo de absurdos virtuais. A franquia Fable, desenvolvida originalmente pela Lionhead Studios, sempre teve essa pegada única de misturar contos de fadas britânicos, humor ácido e consequências reais para os nossos atos dentro da gameplay. Quando a Playground Games assumiu o reboot da série, o hype da comunidade foi lá em cima, mas nem todas as notícias sobre o projeto agradam a todos os veteranos que curtiram os títulos clássicos.
A grande polêmica da vez envolve a ausência total de suporte ao modo cooperativo na nova aventura, jogando um balde de água fria em quem esperava reviver a experiência com os amigos. Enquanto os jogos anteriores permitiam que um segundo jogador entrasse na jogatina para ajudar a espancar bandidos, explorar calabouços ou debater escolhas políticas difíceis, desta vez a experiência será estritamente single-player. A decisão criativa coloca toda a responsabilidade dos rumos da história nas costas de um único herói solitário, que terá que desbravar cada canto desse universo sem uma alma carinhosa ao lado.

Voltar no tempo para Fable 2 e Fable 3 é lembrar de como a Microsoft tentou inovar ao inserir mecânicas de co-op em RPGs de ação de mundo aberto. No segundo jogo, apesar das limitações bizarras que tratavam o segundo jogador como um mero lacaio sem direito a abrir baús livremente, a comunicação constante era obrigatória para sobreviver às hordas de inimigos. Já o terceiro capítulo elevou a parada a um patamar totalmente diferente, transformando a segunda metade da campanha em um simulador de gestão de reino implacável onde cada moeda contava para salvar a população.
Durante o famigerado arco Weight of the World, os jogadores precisavam tomar decisões moralmente cinzentas para encher os cofres reais e financiar um exército contra uma ameaça iminente. Decidir se o reino investiria em educação ou no retorno do trabalho infantil, ou se um antigo abrigo seria convertido em um cabaré lucrativo, gerava debates calorosos e discussões reais entre amigos dividindo o sofá. Era justamente essa troca de ideias e a construção de memórias compartilhadas que tornavam a progressão algo muito além de apertar botões para derrotar chefões.

Para muitos fãs que enfrentaram momentos difíceis na vida real — como o isolamento durante a pandemia da COVID-19 —, revisitar esses mundos ao lado de colegas funcionou como um verdadeiro pilar de sanidade mental. Poder contar histórias sobre as reviravoltas bizarras da campanha ou decidir conjuntamente o destino de Albion dava um peso emocional absurdo para a jornada. É exatamente essa sensação de camaradagem que o novo título parece disposto a sacrificar em nome de uma narrativa focada exclusivamente na solidão do protagonista.
Claro que focar puramente na experiência individual pode permitir que a Playground Games entregue uma narrativa mais redondinha, cinematográfica e sem as travas técnicas que costumavam atrapalhar o multijogador naqueles hardwares antigos. Sem a necessidade de sincronizar mundos ou gerenciar inventários divididos, os desenvolvedores ganham liberdade criativa para moldar cada detalhe estético e reativo do cenário conforme a nossa barra de moralidade. A questão é saber se essa troca vai valer a pena para a base de fãs mais antiga.

Afinal de contas, a identidade da franquia sempre esteve atrelada à liberdade cômica e caótica de chutar galinhas na praça da cidade e ver os cidadãos reagirem com horror ou adoração. Quando você adiciona outra pessoa na equação, o caos dobra de tamanho e as gargalhadas costumam vir em dobro, criando aquela atmosfera de aventura de RPG de mesa raiz. Abrir mão disso significa transformar uma experiência que era social e viva em algo introspectivo, mudando drasticamente a essência do que tornou a marca tão querida pelo público do Xbox Series X e do PC.
No fim das contas, a indústria de games atual parece caminhar cada vez mais para extremos: ou temos experiências live service entupidas de microtransações e foco total no multiplayer, ou apostas minimalistas em narrativas puramente solitárias. O meio-termos das campanhas cooperativas de sofá, que marcaram tanto a oitava e a nona gerações, anda escasso e cada perda desse naipe dói no coração da velha guarda. Resta torcer para que a qualidade artística compensue a falta de companhia.

A promessa visual e a atmosfera britânica escrachada continuam firmes e fortes, mostrando que o estúdio entendeu a linguagem visual deixada de herança pela Lionhead. Só nos o lançamento está previsto por novas demonstrações de gameplay para entender como a exploração de Albion vai se sustentar sem a ajuda de um bom amigo para dividir o peso da coroa e a culpa pelas nossas escolhas duvidosas.




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