Voltar no tempo e lembrar daquela época de ouro em que a Rockstar Games parecia querer testar os limites de absolutamente qualquer hardware existente na face da Terra é um exercício nostálgico absurdo. Enquanto a galera estava maravilhada com a revolução 3D de GTA 3 e Vice City nos consoles de mesa, a empresa decidiu que era uma boa ideia espremer o caos urbano de Liberty City na telinha minúscula e sem iluminação de um Game Boy Advance. O resultado dessa empreitada maluca foi Grand Theft Auto Advance, um título que carrega o fítulo ingrato de pior jogo da franquia, mas que guarda uma importância histórica inegável para a indústria dos videogames.
Lançado em 26 de outubro de 2004 por cerca de $39.99 (cerca de R$ 220), o game colocava os jogadores na pele de Mike, um criminoso pé-de-chinelo que só queria sumir do mapa, mas acaba em meio a uma conspiração sangrenta da máfia após a morte do seu parceiro Vinnie. Diferente dos padrões atuais onde a lore costuma ser tratada com luvas de pelica, aqui a Rockstar permitiu que a desenvolvedora Digital Eclipse entregasse uma narrativa crua, rápida e cheia de reviravoltas trágicas que funcionavam muito bem, mesmo com as limitações técnicas severas da época.

O grande problema é que a ambição da Rockstar atropelou completamente a realidade técnica do portátil da Nintendo. Quem teve a coragem de enfiar o cartucho no console portátil lembra muito bem do festival de bugs, da taxa de framerates sofrível que despencava nas horas de tiroteio e de um esquema de controles totalmente truncado. Afinal, tentar adaptar a liberdade absurda de movimento de um jogo em terceira pessoa para meia dúzia de botões espremidos em um aparelho minúsculo exigia um verdadeiro milagre de otimização que simplesmente não aconteceu.
Mesmo sofrendo com um design datado e uma jogabilidade que hoje em dia faria qualquer gamer correr para as colinas, o título funcionava como um laboratório de testes fascinante para a Rockstar. Era a época de ouro onde as empresas de médio e grande porte ainda tinham a coragem de bancar experimentos malucos, aceitando lançar produtos falhos comercialmente ou criticamente apenas para ver até onde conseguiam esticar as amarras tecnológicas de uma plataforma.

Hoje em dia, o mercado AAA virou uma máquina de gastar centenas de milhões de dólares onde o hype precisa se traduzir em lucros bilionários imediatos e notas perfeitas no Metacritic. Ver uma gigante como a Rockstar arriscar a reputação de sua principal propriedade intelectual em um spin-off portátil de qualidade duvidosa é algo impensável no cenário atual dos games, onde cada lançamento precisa ser milimetricamente calculado para evitar qualquer flop financeiro ou revolta da comunidade nas redes sociais.
A estrutura das missões de Grand Theft Auto Advance misturava elementos clássicos da perspectiva top-down dos dois primeiros jogos da franquia com a narrativa cinematográfica que a empresa viria a consolidar nos anos seguintes. Havia corridas de rua ilegais, missões de bombeiro e aquela sensação deliciosa de plantar o caos total na cidade, mesmo que os gráficos pixelados parecessem mais um borrão colorido do que uma recriação fiel da selva de pedra americana.

É bem verdade que a experiência de jogar isso nos dias de hoje exige uma dose cavalar de paciência e nostalgia, já que o controle de veículos é uma verdadeira tortura e as mecânicas de combate envelheceram como leite no sol. No entanto, ignorar a existência desse projeto é esquecer um pedaço fundamental da evolução da própria indústria de entretenimento eletrônico, mostrando que até os maiores mestres da história precisaram errar feio para aprender a acertar no futuro.
A indústria atual perdeu essa margem para o erro criativo, focando todas as suas forças em experiências hiper-polidas que custam uma fortuna e demoram uma década inteira para ver a luz do dia na Steam ou nos consoles da nova geração como PS5 e Xbox Series X. A ousadia de colocar um produto imperfeito no mercado em nome da experimentação pura e simples é um luxo que ficou perdido no passado.

No fim das contas, olhar para trás e revisitar essas relíquias esquecidas nos faz valorizar a garra dos desenvolvedores que tentavam fazer mágica com hardware limitado. Grand Theft Auto Advance pode não ser recomendado para quem busca diversão descompromissada nos dias de hoje, mas seu legado como uma cicatriz necessária na história da Rockstar permanece intacto e digno de respeito.
Se você nunca teve a oportunidade de testar essa raridade na época em que ela dominava as prateleiras das locadoras, vale a pena dar uma olhada em vídeos de gameplay apenas para entender o tamanho do salto tecnológico que demos nas últimas décadas.




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