Imagina você comprar um jogo da série Plague Tale e, ao dar o boot, perceber que não tem um único rato na tela. Parece piada, mas é exatamente a aposta ousada (ou suicida) da Asobo Studio em Resonance: A Plague Tale Legacy. A gente passou anos acostumado com aquele clima tenso de furtividade e hordas de roedores devorando tudo, mas aqui a empresa decidiu jogar as regras antigas no lixo para tentar algo completamente diferente.
O papo é reto: o jogo tenta se distanciar dos pilares que tornaram Innocence e Requiem sucessos de crítica. Em vez de controlar a praga, agora temos uma pegada muito mais voltada para a ação e exploração, o que deixa qualquer fã da franquia com a pulga atrás da orelha. A pergunta que fica é se a marca Plague Tale ainda faz sentido quando você remove o elemento que definiu a identidade visual e mecânica de toda a série.

Para preencher esse vazio, a Asobo Studio nos apresenta Sophia, uma personagem que já conhecemos de Requiem, mas aqui em sua versão jovem, quinze anos antes dos eventos principais. Ela faz parte de um bando de saqueadores liderados por um cara chamado Faro, e a trama gira em torno de uma ilha misteriosa onde o pai de Sophia morreu. É aquele tipo de setup clássico de busca por tesouros que a gente já viu em centenas de outros títulos, mas que aqui ganha um peso emocional interessante devido à performance da dublagem.
O problema começa quando a gente entra no combate. O jogo introduz um sistema de parry, esquiva e ataques leves e pesados que, sinceramente, é a coisa mais genérica que eu vi nos últimos tempos. Tem até um gancho para puxar inimigos e chutes que jogam os caras para fora de penhascos, o que até diverte nos primeiros dez minutos, mas logo vira aquela rotina maçante. Para quem gostava daquela tensão quase de immersive sim onde você apagava tochas e distraía guardas, esse novo foco em ação simplesmente flopou.

Enquanto a furtividade dos jogos anteriores era singular e inteligente, o combate de Resonance: A Plague Tale Legacy parece ter sido copiado de qualquer tutorial de ação moderna. Não é que seja impossível de jogar, mas é chato. Cada luta se torna uma tarefa, um checklist de botões que você precisa apertar sem que haja qualquer inovação real. É aquele caso onde a empresa quis dar um buff na jogabilidade, mas acabou tirando a alma do negócio para entregar algo que vários outros jogos já fazem com perfeição.
Por sorte, as coisas melhoram drasticamente quando as espadas são guardadas e a exploração começa. Ao chegar na tal ilha misteriosa, o jogo vira basicamente um Tomb Raider ou um Uncharted. A gente passa a explorar ruínas minoicas, ler diários de expedições antigas e tentar decifrar como entrar em labirintos mitológicos. Essa parte de navegação em áreas semi-abertas é um deleite visual e mecânico, provando que a Asobo Studio ainda sabe criar cenários que tiram o fôlego.

As puzzles de plataforma e manipulação de objetos são bem executadas, mesmo não sendo a ideia mais original do mundo. É engraçado pensar que eu preferiria jogar dez puzzles desses do que enfrentar uma única luta contra os inimigos do jogo. A sensação de descobrir o caminho para o centro do labirinto do Minotauro traz de volta aquele sentimento de aventura que estava fazendo falta, transformando a experiência em uma jornada cinematográfica digna de aplausos, apesar dos tropeços no gameplay.
Mesmo com as falhas gritantes no combate, a narrativa consegue ancorar tudo. A história de Sophia é bem escrita e a evolução da personagem é palpável, o que impede que o jogo se torne um desastre completo. A gente consegue sentir a conexão dela com o passado e o mistério da ilha, tornando a experiência envolvente o suficiente para você ignorar que, tecnicamente, este jogo não tem quase nada a ver com seus antecessores em termos de design.

Se você está procurando um jogo de aventura épico para curtir no seu PS5, Xbox ou PC, Resonance: A Plague Tale Legacy entrega um espetáculo visual e uma trama sólida. Agora, se você espera a mesma tensão agoniante de lidar com milhões de ratos, vai sair decepcionado. O jogo é bom, mas é um estranho no próprio ninho. Ele brilha como jornada cinematográfica, mas falha miseravelmente em tentar justificar por que ainda carrega o nome da franquia.
No fim das contas, a Asobo Studio criou um produto competente, mas que sofre de uma crise de identidade severa. É aquele jogo que você recomenda para um amigo que gosta de Notícias de exploração, mas que avisa: "não espere um Plague Tale tradicional". O resultado é um título que diverte, mas que deixa aquele gosto amargo de que a fórmula original era muito mais interessante do que essa tentativa de se tornar um blockbuster de ação genérico.

Para quem quiser jogar com a melhor performance possível no PC ou via Xbox Game Pass, a dica é focar na história e nas puzzles, e tentar passar pelas lutas o mais rápido possível. No geral, é uma experiência que vale a pena pelo visual e pelo roteiro, mas que deixa a gente querendo que os ratos voltassem para colocar ordem na casa.



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