Quem diria que um jogo originalmente concebido para rodar no saudoso e exótico Nokia N-Gage conseguiria encontrar uma sobrevida tão brilhante nos dias de hoje? Navegando pelas profundezas da Steam, esbarrei recentemente em uma daquelas promoções de cair o queixo que o algoritmo insiste em nos mostrar durante a temporada de ofertas do PC. Trata-se de Xanadu Next, um RPG de ação isométrica desenvolvido pela lendária Nihon Falcom que passou despercebido por muita gente na época do seu lançamento original e que agora despenca de preço, custando o equivalente a cerca de R$ 15 reais graças a um desconto cavalar de 70% na loja da Valve.
Para quem não está familiarizado com a cronologia maluca dessa franquia, este título é um spin-off tardio de Xanadu: Dragon Slayer 2, lançado lá em 1985 para o PC-88, sendo amplamente creditado pelos historiadores da indústria como um dos verdadeiros pioneiros dos action RPGs modernos. Demorou duas décadas inteiras para que a desenvolvedora japonesa resgatasse o nome em 2005, inicialmente prendendo o projeto em uma exclusividade bizarra para o portátil da Nokia e, posteriormente, portando-o para os computadores japoneses. A versão de PC trazia melhorias óbvias de desempenho e jogabilidade, mas permaneceu trancada no mercado asiático por anos até receber uma tradução oficial em 2016, abrindo as portas para o público ocidental descobrir essa joia soterrada.

Depois de investir cerca de seis horas explorando os calabouços sombrios e claustrofóbicos desta versão ocidental, dá para entender perfeitamente o motivo de tanta adoração por parte dos fãs mais hardcore da softhouse japonesa. O jogo entrega aquela famosa vibe de exploração estilo Metroidvania, combinada com um sistema de combate focado em cortar e triturar inimigos de forma rústica, porém extremamente satisfatória e viciante.
A estrutura lembra vagamente o clássico Diablo, colocando o jogador em uma vila central segura onde é possível descansar, fazer melhorias de equipamento, negociar itens e avançar na narrativa melancólica da aventura. No entanto, o verdadeiro brilho de Xanadu Next reside no level design intrincado do mundo exterior, que se expande organicamente conforme você adquire chaves cada vez mais caras e desvenda atalhos engenhosos. É um tipo de progressão que evoca a mesma sensação de triunfo proporcionada por mestres modernos do gênero souls-like, onde cada porta destrancada representa um alívio imenso e uma nova camada de conexão com o mapa labiríntico.

O ritmo da progressão é cadenciado e deliberado, funcionando como um verdadeiro loop meditativo de grind pacífico que recompensa a paciência do aventureiro. A atmosfera densa mistura o aconchego típico das vilas medievais de JRPGs clássicos com uma névoa constante de melancolia e mistério que permeia as ruínas e masmorras escuras.
Claro que, por se tratar de um port de PC relativamente antigo e obscuro, nem tudo são flores na experiência moderna, exigindo alguns malabarismos técnicos para rodar com dignidade no hardware atual. Como o jogo carece de suporte nativo e completo a controles tradicionais, você precisará recorrer a perfis criados pela comunidade no Steam e, ocasionalmente, apelar para o bom e velho mouse na hora de gerenciar o inventário. Além disso, é altamente recomendável executar o arquivo de configuração gráfico antes de iniciar a jogatina pela primeira vez, já que o título não ajusta a resolução automaticamente para as telas modernas.

Ignorar o aviso de incompatibilidade exibido na página oficial da lojinha é o primeiro passo para garantir a diversão portátil, já que o game roda perfeitamente bem no Steam Deck desde que os ajustes prévios sejam feitos corretamente. Essa descoberta fascinante acabou acendendo aquela faísca de nostalgia e curiosidade para explorar ainda mais o catálogo histórico da Nihon Falcom, que por sinal também está recheado de promoções tentadoras em outros títulos aclamados como a franquia Ys.
Aproveitar esses tesouros escondidos que custam uma fração do preço original é uma das maiores vantagens de garimpar as promoções digitais no ecossistema dos computadores. Mesmo carregando as limitações técnicas inerentes à sua idade e à sua origem portátil incomum, Xanadu Next prova que um bom design de mundo e uma atmosfera marcantes sobrevivem bravamente ao teste do tempo.




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