Sabe aquele negócio de série antologia onde a galera decide que uma temporada específica é o 'patinho feio' do grupo? Pois é, a gente vê isso acontecer direto, tipo quando o pessoal tenta ignorar a segunda temporada de True Detective ou aquele episódio aleatório de Black Mirror que ninguém aguenta mais. Aqui na Gamer Elite, a gente gosta de bater o pé e defender o que é bom, mesmo que o hype geral tenha ido para o outro lado, e é exatamente isso que vamos fazer com a Season 4 de Fargo.
Se você perguntar para qualquer fã fervoroso da série do FX, as chances de eles colocarem a quarta temporada no fundo do ranking são gigantescas, e sinceramente, eu entendo o porquê. Ela foge totalmente daquela vibe 'estranha' e cômica dos irmãos Coen que a gente ama, diminuindo a dose de personagens excêntricos que fazem a série ser tão única. O ritmo é mais lento, a pegada é diferente e a mudança de cenário deixa muita gente perdida, mas é aí que mora a genialidade da parada.

A primeira grande mudança que deu um nó na cabeça dos espectadores foi o salto temporal e geográfico. Enquanto a maioria das temporadas se passa depois do ano 2000 no gelo de Minnesota, a Season 4 nos joga direto em 1950, no calor urbano de Kansas City, Missouri. A estética muda completamente, o sotaque típico de Minnesota some quase por completo e a série assume uma postura de crime drama muito mais densa, quase como se tivesse sido 'nerfada' no humor para ganhar um 'buff' no drama.
O plot gira em torno de uma guerra de gangues entre duas famílias criminosas rivais: uma família negra e uma italiana, ambas lutando pelo controle de Kansas City. De um lado temos Loy Cannon, interpretado por um Chris Rock que entrega, sem exagero, a melhor performance de toda a sua carreira, sendo um líder inteligente, temperado e business-savvy, mas que sofre com o preconceito brutal da época. Do outro lado, temos a máfia italiana liderada por Donatello Fadda, criando um jogo de xadrez criminoso fascinante.

Para manter uma paz instável, as famílias tinham a tradição bizarra de trocar seus filhos: os Fadda criaram o filho de Cannon, e os Cannon criaram o filho de Fadda. Tudo ia bem até que Donatello bate as botas e assume o comando seu filho, Josto Fadda (Jason Schwartzman), um cara impulsivo e inseguro que não tem a menor noção do que está fazendo. É nesse ponto que a temporada engata, transformando a tensão em uma guerra total com reviravoltas que deixam qualquer um de queixo caído.
E claro que não podia faltar aquele toque de loucura típico de Fargo, que aparece na figura de Oraetta Mayflower (Jessie Buckley), a namorada excêntrica de Josto. Ela é basicamente a única personagem que mantém aquele sotaque de Minnesota e serve como a ponte para aquele estilo visceral dos irmãos Coen. Para fechar o elenco de peso, temos Timothy Olyphant como o U.S. Marshal Dick "Deafy" Wickware, trazendo um charme necessário para equilibrar o clima pesado de crimes e traições.

A narrativa é um slow burn, ou seja, ela cozinha a história em fogo baixo, exigindo paciência do público para montar o quebra-cabeça de tantos personagens. Não espere encontrar heróis aqui; a maioria do elenco está fazendo coisas terríveis, mas a série consegue ser real e reflexiva ao abordar o preconceito racial dos anos 50, algo que as outras temporadas, povoadas quase só por brancos, não exploraram com tanta profundidade. É um amadurecimento da série que muitos fãs ignoraram por quererem apenas piadas e neve.
Um dos pontos mais recompensadores para quem acompanha a franquia é como a Season 4 se conecta com a Season 2. Eu não vou dar spoiler aqui porque isso destruiria a experiência, mas a surpresa é deliciosa e mostra que o roteirista Noah Hawley planejou tudo com precisão cirúrgica. Em vez de tentar copiar o filme original de 1996, a série se inspira mais em Miller's Crossing, outro clássico dos Coen, focando em diálogos afiados e conspirações políticas no submundo do crime.

Se você está procurando algo para maratonar no final de semana, pare de ouvir quem diz que essa temporada flopou e dê uma chance para esse neo-western. A química entre Chris Rock e Jason Schwartzman é elétrica, e a construção da tensão é magistral. É aquele tipo de conteúdo que a gente encontra nas seções de Notícias de entretenimento e que, muitas vezes, passa batido por não seguir a fórmula óbvia do sucesso imediato.
No fim das contas, a Season 4 de Fargo prova que ser diferente não significa ser pior. Ela expandiu o universo da série, trouxe discussões sociais urgentes e mostrou que o FX não tem medo de arriscar em propostas mais densas. É uma obra brilhante do início ao fim, que transforma o ódio dos fãs em um combustível para quem sabe apreciar um drama criminal bem escrito e executado com maestria.




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