Cara, vamos falar a verdade: o gênero de RPG japonês nos últimos tempos tem sido um parque de diversões. A gente tem de tudo, desde as franquias gigantescas que não morrem nunca, como Final Fantasy e Dragon Quest, até aqueles títulos que ficam ali no cantinho, servindo um nicho fiel mas sem nunca estourar no mainstream, tipo Shin Megami Tensei ou Legend of Heroes. Mas tem uma série que, na minha opinião, é injustamente deixada de fora de qualquer conversa séria sobre a evolução do gênero, e eu estou falando de Star Ocean.
É bizarro pensar que já se passaram 30 anos desde que o primeiro jogo estreou em julho de 1996. Mesmo com lançamentos mais recentes, como Star Ocean: The Divine Force em 2022, a galera do hype atual parece ter esquecido que essa franquia não estava apenas seguindo a corrente, ela estava criando a porra da corrente. O impacto que o primeiro título teve na época foi absurdo, introduzindo uma mecânica que mudou a forma como a gente entende o desenvolvimento de personagens nos games.

Para entender onde o Star Ocean nasceu, a gente tem que voltar para a bagunça nos bastidores do desenvolvimento de Tales of Phantasia. Rolou aquele climão pesado na liderança do projeto, o que fez com que membros chave da Wolf Team pedissem as contas e fundassem a Tri-Ace. Esses caras não estavam para brincadeira e usaram todo o conhecimento acumulado para criar algo novo, fundindo fantasia clássica com elementos de ficção científica, resultando em um mix que era puro suco de inovação para a época.

Foi nesse cenário que eles soltaram a bomba chamada "Private Actions". Se você jogou RPGs antigos, sabe que a interação entre os personagens era quase sempre um trilho de trem: você assistia à cena, os personagens falavam o que os roteiristas queriam, e pronto. Lembra daquela cena clássica de acampamento em Chrono Trigger? É linda, é icônica, mas você não tem voz ali; você é apenas um espectador do desenvolvimento dos personagens. O Star Ocean chegou e falou: "Vou chutar esse balde agora".
Com as Private Actions, o jogo permitia que, ao chegar em um novo lugar, você pudesse apertar um botão e dividir seu grupo em subgrupos. Isso abria a porta para eventos opcionais onde os personagens realmente interagiam de forma orgânica. Imagina o Roddick dando um presente para a Ilia, e isso causar um ciúme absurdo no Ronyx. Não era só texto para encher linguiça; essas interações afetavam os níveis de afeto entre os membros da party, mudando completamente a dinâmica do grupo.

O mais genial disso tudo é que a Tri-Ace não deixou as coisas apenas no campo do "estético". Se você jogasse as interações do jeito certo, podia desbloquear habilidades e skills que seriam impossíveis de conseguir de outra forma. Isso transformou o desenvolvimento de personagens em um jogo dentro do jogo. Além disso, como a composição do seu time influenciava quais eventos apareciam, o valor de replay subia absurdamente, incentivando a gente a experimentar combinações diferentes para ver o que acontecia.
Infelizmente, para nós aqui do Brasil e para a galera dos EUA, esse brilho demorou a chegar. O Star Ocean original não veio para o Ocidente na época, e a franquia só começou a ganhar corpo por aqui quando a SCEA publicou Star Ocean: The Second Story no PlayStation. Quem quis experimentar o primeiro jogo teve que esperar até 2008, com a chegada de Star Ocean: The First Departure no PSP. Foi um gap enorme que fez muita gente achar que a série tinha flopado, quando na verdade ela só estava mal distribuída.

Mas ó, mesmo sem estar disponível em todo lugar, a semente foi plantada. Quando Star Ocean: The Second Story finalmente chegou, a série Tales já tinha respondido criando os "skits", que funcionavam de forma muito parecida. Mais tarde, jogos como Tales of Symphonia aprofundaram isso, e até o lendário Final Fantasy IX tentou a sorte com os ATEs (Active Time Events). Ou seja, quase todo RPG moderno que se preza e coloca interações opcionais entre companheiros deve um agradecimento ao Star Ocean.

Hoje em dia, com a chegada de Star Ocean: The Divine Force no PS5 e Xbox Series X, a série tenta se manter relevante em um mercado saturado. Embora alguns achem que a gameplay ficou datada ou que a narrativa não bate mais com o que a gente espera hoje, é impossível não respeitar a coragem da Tri-Ace em querer quebrar as regras do gênero lá atrás. Eles não queriam apenas que você jogasse a história, eles queriam que você moldasse os relacionamentos dentro dela.
No fim das contas, Star Ocean é aquele tipo de série que prova que a inovação muitas vezes vem de quem está insatisfeito com o status quo. A saída da galera da Wolf Team para criar algo novo foi o que permitiu que a gente tivesse camadas de profundidade nos personagens que hoje consideramos básicas. Se você gosta de JRPGs, ignorar essa franquia é como ignorar a fundação de uma casa e reclamar que o teto está torto.
Meu veredito? Se você nunca encostou em um Star Ocean, procure as versões remasterizadas ou os relançamentos. Pode ser que a interface pareça um pouco estranha no começo, mas a sensação de descobrir um evento secreto e ganhar aquele buff absurdo por ter feito dois personagens se darem bem é impagável. É a prova viva de que, nos games, a liberdade de escolha é o que realmente transforma um jogo bom em algo lendário.



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