Se você parar para pensar no que define uma novela, provavelmente vai lembrar de dramas exagerados, traições descaradas e aquele clima de 'quem é o pai de quem' que a gente vê em produções bem cafonas. A Nintendo, geralmente, não é a primeira empresa que vem à mente quando falamos nesse nível de melodrama, já que a pegada deles costuma ser mais focada em diversão pura ou aventuras épicas, mas eles quebraram totalmente esse padrão. Junto com a Intelligent Systems, a gigante japonesa entregou em 26 de julho de 2019 algo que é, essencialmente, uma soap opera de luxo disfarçada de RPG estratégico: o Fire Emblem: Three Houses.
O bagulho é doido porque o jogo não tenta ser apenas mais um título de guerra por turnos; ele entrar a fundo em questões de estratificação social, religião corrupta e traumas familiares que fariam qualquer roteirista de novela das nove ter inveja. A gente assume o papel de Byleth, um personagem que basicamente acorda de um estado de quase morte para descobrir que tem um deus minúsculo morando dentro de si e, do nada, vira professor no Mosteiro de Garreg Mach. A partir daí, o jogo vira um simulador de rede de contatos para nobres e plebeus ambiciosos, onde a sua escolha de quem mentorar decide literalmente quem vai sobreviver e quem vai morder o pó no campo de batalha.

Se você quer sentir o peso da aristocracia e do hype de derrubar um sistema arcaico, a casa das Águias Negras é o caminho. Liderada por Edelgard, essa galera é composta por nobres que não escondem o privilégio, mas a líder tem uma missão clara: destruir a igreja e reconstruir o mundo, custe o que custar. É aquele tipo de narrativa onde você vê a personagem evoluir de uma estudante determinada para alguém disposta a incendiar o continente para alcançar a justiça, transformando o jogo em um thriller político onde o custo humano é altíssimo e a tensão é constante.

Já nos Leões Azuis, a vibe muda completamente para algo muito mais melancólico e pesado. Sob o comando de Dimitri, vemos nobres que, ao contrário das Águias, foram as vítimas de suas próprias criações e traumas de infância. Essa rota é focada quase inteiramente em lidar com o passado e a tentativa desesperada de retornar a um status quo que talvez nem exista mais. É angustiante ver como a dor molda esses personagens, fazendo com que a guerra seja menos sobre ideologia e mais sobre a redenção de almas completamente quebradas.

Para quem prefere algo menos 'sangue e fogo' e mais focado em diplomacia e inteligência, os Cervos Dourados são a escolha certa. Liderados por Claude, esse grupo mistura nobres pragmáticos com plebeus extremamente competentes, buscando uma visão de igualdade para Fodlan que não envolva necessariamente o extermínio de metade da população. O Claude é aquele personagem malandro que joga xadrez com as pessoas, e a dinâmica dessa casa traz um frescor necessário ao jogo, provando que dá para ser ambicioso sem ser necessariamente um vilão de desenho animado.

Não podemos esquecer da própria igreja, a facção que controla as strings de todo esse teatro. Com a figura imponente de Rhea, a igreja representa a estagnação e a sede de poder disfarçada de santidade. O conflito central do jogo gira em torno de quem terá a coragem de desafiar esse dogma e quem vai continuar sendo marionete do sistema. É aqui que o jogo brilha como drama, colocando o jogador em um dilema moral onde não existe um lado '100% certo', mas sim diferentes tons de cinza e muita manipulação.
O sistema de recrutamento do Fire Emblem: Three Houses adiciona uma camada de crueldade que eu, particularmente, adoro. Você pode tentar convencer alunos de outras casas a se juntarem a você, mas se você falhar e eles ficarem no lado oposto da guerra, as chances são grandes de que você mesmo terá que dar o golpe final neles. É um buff narrativo absurdo que torna cada vínculo afetivo criado durante as aulas no mosteiro uma potencial arma de tortura psicológica mais tarde. Não tem como não se sentir mal quando um personagem que você adorava acaba virando apenas um número nas estatísticas de baixas da guerra.

Para fechar a análise técnica, o jogo abraça todas as convenções de RPGs de drama: cenários que servem de 'porto seguro' antes do caos, ênfase exagerada em relacionamentos familiares e aquelas resoluções milagrosas do tipo Deus Ex Machina. Ter poderes mágicos que despertam na hora certa ou a revelação de divindades internas pode parecer clichê para alguns, mas dentro da proposta de 'novela' do jogo, isso funciona perfeitamente. O jogo não tenta ser um simulador realista de guerra, ele quer que você sofra, se apaixone e se sinta traído, e ele faz isso com uma maestria rara no Nintendo Switch.
Olhando para trás, Fire Emblem: Three Houses não flopou em nada; pelo contrário, ele elevou o patamar de como a Nintendo pode contar histórias complexas sem medo de tocar em feridas abertas. O jogo consegue equilibrar a parte estratégica de combate por turnos com um desenvolvimento de personagem que é genuinamente envolvente, fazendo com que a gente queira jogar as quatro rotas diferentes só para ver como cada peça do tabuleiro se move. É aquele tipo de experiência que te deixa pensando nos personagens dias depois de ter desligado o console.
No fim das contas, esse título provou que o gênero de estratégia pode ter alma e coração, fugindo daquela frieza de apenas 'mover peças no mapa'. A densidade do roteiro e a coragem de criar antagonistas com motivações compreensíveis transformam a obra em um clássico moderno. Se você ainda não jogou, está perdendo um dos melhores dramas já colocados em formato de videogame, com uma profundidade que raramente vemos em jogos de primeira linha hoje em dia.



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