Sabe aquele sentimento de começar um jogo com um objetivo claro, mas dez minutos depois você está ajudando um NPC aleatório a encontrar o sapato perdido enquanto ignora completamente que o mundo está acabando? Pois é, esse é o tipo de caos que a gente ama, e é exatamente essa a energia que está movendo o desenvolvimento de Entropy. Para quem curte aquele estilo de exploração raiz, onde a curiosidade recompensa mais do que seguir a seta do mapa, esse título está surgindo como um prato cheio nas Notícias mais recentes do cenário indie.
O projeto é assinado pela Lovely Hellplace, a mesma galera que nos entregou o fantástico Dread Delusion. Se você não jogou, perdeu um baita homage aos clássicos de primeira pessoa, mas quem experimentou sabe que a força do jogo estava justamente nas quests secundárias bizarras e profundas. Agora, com Entropy, eles estão mudando a pegada para um combate estilo JRPG em um mundo caído e surreal, mas a obsessão por contar histórias paralelas continua intacta e, honestamente, maior do que nunca.

Em uma conversa recente, o lead developer James Wragg soltou a real: sidequests são praticamente o motivo pelo qual ele faz videogames. Ele admitiu que a inspiração para Dread Delusion veio justamente de jogar a série Elder Scrolls ignorando a missão principal de propósito, só para se perder no conteúdo lateral. Para o Wragg, é nas histórias secundárias que os RPGs realmente ganham vida, porque é onde os roteiristas têm liberdade para serem genuinamente estranhos e criar contrastes que a trama principal, geralmente mais rígida, não permite.
Essa filosofia de design acaba criando um problema delicioso para a equipe: o volume de texto do jogo está explodindo. O desenvolvedor contou que ele mesmo escreveu cerca de um terço do conteúdo de Entropy, criando esboços e direções gerais que depois são lapidadas por outros escritores. É aquele processo de "estourar o orçamento de palavras" porque a vontade de aprofundar cada personagem é maior do que a disciplina de manter o jogo curto e conciso.

O nível de loucura que eles buscam não é qualquer coisa. No jogo anterior, tivemos dilemas éticos envolvendo zumbis vegetarianos e investigações que pareciam ter saído de Blade Runner 2049. Para alcançar esse nível de hype, James Wragg elogiou demais o trabalho de Harry Tuffs, que transformou ideias simples em narrativas complexas, e a returnante Io Brindle, que foi a mente por trás de algumas das quests mais memoráveis de Dread Delusion. Essa sinergia entre a equipe de escrita é o que impede o jogo de se tornar apenas mais um amontoado de textos chatos.
Curiosamente, a intenção inicial para Entropy era justamente o oposto. O Wragg confessou que queria cortar a gordura, diminuir a contagem de palavras e ser muito mais sucinto, já que o projeto anterior tinha o tamanho de um romance e deu um trabalho absurdo. No entanto, conforme a escrita avançava, a equipe percebeu que não conseguia abrir mão de explorar temas interessantes e dar camadas aos personagens. No fim das contas, o desejo de criar algo denso venceu a vontade de fazer algo rápido.

Para quem joga no PC, essa abordagem é um sopro de esperança em tempos de jogos que pegam o jogador pela mão o tempo todo. Ter um desenvolvedor que assume que "ama demais as sidequests" é um sinal claro de que o jogo não será apenas um checklist de tarefas, mas sim um mundo com alma. Mesmo que isso signifique um esforço hercúleo para a equipe de tradução e revisão, o resultado final tende a ser muito mais recompensador para quem realmente mergulha na lore.
O jogo já está disponível em Early Access na Steam, e a expectativa é que esse conteúdo expandido continue crescendo até o lançamento final. Se eles conseguirem manter a qualidade do que fizeram anteriormente, Entropy tem tudo para ser aquele tipo de RPG que a gente joga por centenas de horas sem nem notar a passagem do tempo, simplesmente porque cada canto do mapa esconde uma história que não tem nada a ver com salvar o mundo, mas que é fascinante por si só.

No meu ver, essa é a mentalidade correta para criar um RPG de respeito. Muitos estúdios hoje em dia focam tanto na "experiência cinematográfica" da quest principal que esquecem que a magia dos jogos está justamente na liberdade de se perder. Se o roteiro está ficando gigante porque os caras estão empolgados com a criação do mundo, eu não quero que eles cortem nada. Prefiro mil vezes um jogo excessivamente verbose e rico em detalhes do que um título genérico e magro.
No fim das contas, Entropy parece ser a aposta certa para quem sente falta daquela era dos jogos onde a exploração era o prêmio principal. A Lovely Hellplace está jogando o jogo da ambição, e se eles entregarem essa densidade narrativa que prometeram, teremos um dos indies mais marcantes dos últimos anos. Agora é só torcer para que esse volume imenso de texto seja bem polido para não virar um cansaço, mas conhecendo o histórico da equipe, a chance de ser genial é alta.




💬 Comentários da Comunidade
Carregando comentários...