Olha, vamos ser sinceros: quando a gente ouve a palavra spinoff, o primeiro pensamento que vem à cabeça é que a empresa quer sugar cada centavo do hype de uma franquia que já deu o que tinha que dar. Mas, no caso de Rick and Morty, a coisa parece ser diferente. A Adult Swim resolveu tirar o foco do vovô niilista e do neto traumatizado para dar o palco ao President Curtis, e pelo que vimos, a proposta é bem mais pé no chão — se é que podemos usar esse termo para falar de leprechauns e ciborgues no governo americano.
A série chega logo após o encerramento da Season 9 no dia 26 de julho, então não vai ter aquele vazio desesperador entre as temporadas. O foco agora é o President Curtis (Keith David), que vai tentar proteger os Estados Unidos de ameaças ocultistas e alienígenas. O mais curioso é que o criador Dan Harmon admitiu que precisou dar um buff na personalidade do personagem para a série, tornando-o alguém mais simpático e menos obcecado por curtidas e visualizações do que era na série principal.

Se Rick and Morty é basicamente uma sitcom familiar inspirada em Doctor Who, o President Curtis quer ser uma sitcom de ambiente de trabalho na pegada de The X-Files. O elenco de apoio é simplesmente insano: temos a Banks (Stephanie Beatriz), que é uma ciborgue capaz de baixar novas habilidades direto no cérebro, e o Special Agent O’Doyle (Jim Rash), um guarda-costas meio leprechaun que lê auras e usa munições especializadas para detonar monstros. É a receita perfeita para a anarquia.
O Dan Harmon disse que montou esse trio para ter o mesmo equilíbrio dinâmico de Captain Kirk, Spock e McCoy de Star Trek, mas sem cair no clichê do personagem puramente lógico contra o emocional. A Banks é a idealista do grupo, enquanto o O’Doyle é aquele cara bitolado em hierarquia que odeia magia justamente por causa do seu passado. Já o President Curtis é um ex-Marine divorciado que não tem paciência para joguinhos políticos ou xadrez em quatro dimensões; ele só quer resolver a parada e proteger o mundo.

Um ponto fundamental que diferencia essa série da original é a escala do poder. Enquanto o Rick Sanchez pode simplesmente pular para outro universo se as coisas derem errado, o President Curtis e sua equipe estão limitados à Terra. Isso muda tudo, porque as consequências agora são reais e o peso emocional é maior. O co-showrunner James Siciliano explicou que a série é mais aterrada, e justamente por isso as missões do presidente importam tanto, fugindo daquele niilismo extremo onde nada importa porque existem infinitas versões de tudo.

Os roteiros parecem estar bem malucos, com o episódio piloto focando em uma briga com a CIA sobre a verdade por trás da primeira ida do homem à Lua. Além disso, teremos rituais ocultistas no Camp David, uma prisão secreta no Triângulo das Bermudas e até a França tentando renegociar a compra da Louisiana. É aquele tipo de humor absurdo que a gente ama, mas com uma estrutura de missão da semana que pode funcionar muito bem para quem quer algo menos denso que as tramas multiversais do Rick.
Para quem está preocupado se precisa ter visto tudo de Rick and Morty para entender a história, a resposta é: basicamente não. O Rick e o Morty fazem uma pontinha no episódio de estreia apenas para zoar a própria natureza dos spinoffs e questionar quanto tempo a franquia ainda aguenta, mas a série foca em personagens novos e arcos próprios. É a chance perfeita para novos espectadores entrarem na pira sem precisar maratonar nove temporadas de traumas familiares.

Vocês podem assistir à estreia no dia 26 de julho, às 23h30 (horário do leste), na Adult Swim, e no dia seguinte tudo estará disponível no HBO Max. Eu pessoalmente estou com um pé atrás para ver se não vai flopar por tentar ser "sério" demais, mas a premissa de um presidente ex-Marine lutando contra monstros é boa demais para ignorar. Se mantiverem a acidez da série original, temos um hit nas mãos.
No fim das contas, o risco de qualquer expansão de universo é a saturação, mas mudar o gênero para algo como The X-Files é uma jogada inteligente. Tirar a rede de segurança do multiverso e colocar personagens que podem realmente morrer ou falhar traz um frescor necessário. Agora é só torcer para que a escrita continue afiada e que o President Curtis não vire apenas um boneco para piadas repetitivas.



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